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A pergunta que cada um evita

Moro sofre quando perguntam como. Sandro, quando perguntam por que ainda não fizeram. Requião, quando perguntam se aquilo que afirma se sustenta no detalhe.

Nelio Sander
Por: Nelio Sander
18/09/2026 às 10h24
A pergunta que cada um evita
Imagem: João Zisman

Durante três dias consecutivos, Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho concederam entrevistas à RPC no mesmo formato: transmissão ao vivo, trinta minutos de conversa e mais um minuto para as considerações finais. Não receberam exatamente as mesmas perguntas, mas tiveram tempo equivalente, ambiente semelhante e exposição suficiente para que a comparação ultrapassasse as propostas e chegasse ao modo como cada um funciona quando a pergunta aperta.

Moro parece ser o mais consciente da câmera. Mantém o controle da cena, administra o desconforto e raramente deixa uma pergunta ruim permanecer muito tempo no lugar onde foi feita. Quando pode, leva a conversa para seus terrenos mais fortes: segurança, corrupção, eficiência, autoridade pessoal e a própria biografia.

É uma vantagem. Moro não precisa explicar ao eleitor quem é Sergio Moro. Sua dificuldade aparece quando a biografia deixa de bastar e surge a pergunta mais simples para qualquer candidato a governador: como?

Na saúde, na proposta de uma agência anticorrupção ou na discussão sobre a Copel, a intenção costuma ser clara, mas o mecanismo nem sempre acompanha a mesma nitidez. Moro parece mais confortável explicando o que quer fazer do que detalhando custo, financiamento, competência institucional e instrumentos concretos.

Sandro Alex funciona ao contrário. Não precisa demonstrar intimidade com a máquina porque fala como quem esteve dentro dela. Obras, cidades, contratos, hospitais, rodovias e investimentos aparecem naturalmente. Infraestrutura é seu terreno mais seguro e ele não tenta esconder a continuidade com Ratinho Junior. O “nós fizemos” atravessa sua candidatura.

A força traz a própria conta. Quem reivindica o “nós” para os acertos não consegue desaparecer quando aparecem os problemas. Por isso a pergunta difícil para Sandro não é tanto “como você fará?”, mas “por que vocês ainda não fizeram?”. Sanepar, câmeras corporais e a própria Copel expuseram esse desconforto. A candidatura de continuidade recebe a herança inteira, não apenas o inventário positivo.

Requião Filho completa o triângulo por outro caminho. Sua reação natural é o confronto. Perguntam sobre um problema próprio e ele frequentemente procura o problema do adversário. PT pode levar a Bolsonaro, Carlos Lupi a Moro, Copel a Ratinho e Sandro. É rápido, tem discurso reconhecível e dificilmente aceita ficar acuado.

A dificuldade aparece quando a pergunta não permite a troca de campo. Requião sabe dizer com clareza contra o que está lutando e o que pretende mudar, mas sofre mais quando uma afirmação forte precisa resistir ao detalhe factual. A Copel mostrou isso: o objetivo de recuperar influência sobre a empresa está claro; o caminho societário, o custo e alguns aspectos regulatórios exigem respostas mais precisas.

Talvez a Copel seja o melhor espelho das três entrevistas. Moro precisa explicar o que um governador realmente poderá fazer sobre uma empresa privatizada. Sandro precisa defender uma privatização realizada pelo governo que representa e responder pela insatisfação posterior. Requião propõe o movimento inverso e precisa mostrar como pretende voltar a controlá-la.

A empresa é a mesma. O problema político de cada um, completamente diferente.

No fim, os três também revelaram seus mecanismos de proteção. Moro se abriga na autoridade pessoal e tenta reconduzir a pergunta ao próprio campo. Sandro responde com gestão, números e realizações. Requião transforma defesa em contra-ataque.

É aí que as entrevistas ficam mais interessantes. Não quando o candidato responde aquilo que preparou para responder, mas quando aparece justamente a pergunta que ele preferia não ter recebido.

Moro sofre quando perguntam como. Sandro, quando perguntam por que ainda não fizeram. Requião, quando perguntam se aquilo que afirma se sustenta no detalhe.

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