
DIREITO SEM RODEIOS
Como delegado de polícia, já atuei em inúmeros casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Ao longo dessas investigações, uma realidade se repetiu: o agressor, muitas vezes, não é um desconhecido. É alguém que conquistou a confiança da família, passou a fazer parte da rotina da criança e se aproveitou desse vínculo para cometer o abuso. Pode ser um parente, um vizinho, um amigo da família ou qualquer outra pessoa que tenha livre acesso ao convívio familiar. Por isso, confiança nunca deve substituir vigilância.
A prevenção começa dentro de casa. Ensine seu filho a conhecer o próprio corpo. Use os nomes corretos das partes íntimas e explique que ninguém pode tocá-las, pedir para vê-las, fotografá-las ou pedir que ele toque o corpo de outra pessoa. Ensine também uma regra simples: nenhum adulto deve pedir que uma criança guarde segredos.
Tão importante quanto orientar é saber ouvir. A criança precisa ter a certeza de que será acolhida, levada a sério e protegida. Quando ela tem medo da reação dos adultos, tende a permanecer em silêncio. É justamente desse silêncio que o abusador se aproveita.
Alguns comportamentos merecem atenção: medo repentino de determinada pessoa, recusa em frequentar certos lugares, isolamento, pesadelos frequentes, mudanças bruscas de comportamento, regressão no desenvolvimento e conhecimento sobre sexualidade incompatível com a idade. Isoladamente, esses sinais não confirmam um abuso, mas nunca devem ser ignorados.
Diante de qualquer suspeita, proteja a criança imediatamente. Afaste-a da situação de risco e procure o Conselho Tutelar ou a Polícia Civil. Em determinadas situações, a omissão de quem tinha o dever legal de proteção também pode gerar responsabilização.
O abusador depende do silêncio.
A criança depende de um adulto atento.
Escute. Observe. Acolha. Proteja.
Uma infância protegida começa com um adulto atento.
Delegado Francisco Sampaio
