
Carnaval e poder. O Brasil está em Carnaval. O poder, não.
Enquanto o país dança de Norte a Sul, a agenda institucional atravessa uma fase sensível. O caso Banco Master pressiona o Supremo. O STJ enfrenta seu próprio desgaste. O mercado antecipa volatilidade eleitoral. Nada disso combina exatamente com clima de avenida.
Ainda assim, havia previsão de que o presidente e a primeira-dama desfilassem na Sapucaí. Depois anunciou-se que apenas Janja pisaria na avenida. No fim, ninguém desfilou.
A sequência fala por si.
Não foi a bateria que impôs recuo. Foi o constrangimento. Foi a percepção de que, em meio a tensão institucional e rearranjos eleitorais, a exposição festiva poderia soar como falta de bom senso. Em política, símbolo é mensagem. E mensagem fora de sintonia cobra preço.
A correção de rota evitou desgaste maior. Mas revelou algo mais profundo: a leitura do ambiente não foi precisa desde o início.
No campo econômico, os sinais continuam claros. Empresas brasileiras levantaram mais de US$ 9 bilhões no exterior nas primeiras semanas do ano. A Selic permanece em 15%. O capital não acompanha marchinha. Ele acompanha risco.
No campo eleitoral, a consolidação da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro reorganiza o polo mais radical da direita. Mas esse movimento não encerra o jogo. Pode, ao contrário, estimular o crescimento de candidaturas de centro que já se mostram viáveis e competitivas, como Ratinho Junior, Eduardo Leite ou Ronaldo Caiado.
Em ambiente de tensão institucional e fadiga da polarização, discursos de previsibilidade e equilíbrio tendem a ganhar espaço. Não por idealismo, mas por pragmatismo. O eleitor moderado pode voltar a ser protagonista.
E há ainda o Congresso. O Carnaval desacelera as sessões, mas não as negociações. O centrão observa, testa forças e mede a temperatura do Planalto. A governabilidade neste início de ano legislativo dependerá menos de discursos públicos e mais da capacidade de acomodar interesses em silêncio.
A semana que se inicia será estratégica. O Judiciário tentará administrar desgaste. O governo precisará demonstrar sobriedade. O centro político observará se há espaço para consolidar alternativa real. O mercado seguirá atento.
2026 já pauta decisões de 2025. E isso altera a forma como cada gesto é interpretado.
Carnaval é superfície.
O poder é cálculo.
E cálculo mal feito, em política, nunca termina na quarta-feira de cinzas.
